Apenas nos Modernizamos

 

Somos um País com capacidade de fabricar e exportar aviões (a Embraer, outrora uma empresa estatal antes da privatização em 1994, é atualmente a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo; já entregou ao longo de toda a sua história mais de 5 mil aeronaves e mais de 850 jatos executivos, vendidos para mais de 50 países), mas, contudo, 1/3 das residências brasileiras ainda não tem uma coisa tão simples e banal: água encanada.

Somos donos de uma das melhores cirurgias plásticas do mundo (o segundo País que mais realiza esse tipo de cirurgia no mundo; as melhores técnicas cirúrgicas são desenvolvidas aqui, atendendo inclusive aos astros e estrelas de Hollywood), mas, entretanto, os rostos enrugados de nossos idosos ainda são muito maltratados pelos baixos salários da aposentadoria.

Os pés descalços de nossas crianças que limpam os para-brisas dos automóveis nos semáforos das grandes cidades convivem com a exportação de calçados de primeira qualidade para o mundo rico – somos o terceiro maior produtor e o décimo maior exportador de calçados do mundo. Apenas em 2012, para ilustrar esse assunto, o Brasil exportou, somente para a Europa, 21,6 milhões de pares de calçados.

Ainda continuamos, desde quando os portugueses aqui chegaram, a adoçar as bocas dos europeus, porém, não a de nossa gente. O Brasil é o maior produtor e exportador de laranjas no mundo (somos responsáveis por 25% da produção mundial), seguido por EUA, China, Índia, México, Egito e Espanha, e o maior produtor mundial de goiabas vermelhas. Somos ainda o maior produtor e exportador de acerola do mundo, mas são muitos os brasileiros carentes que não tem acesso a essas frutas.

Assim como ocorre com essas frutas, também exportamos alimentos que não chegam às mesas de muitos brasileiros. Em 2010, 16% da produção de alimentos do Brasil foi destinada, exclusivamente, para alimentar o mundo. Em 2020, esse número será mais que o dobro: 38%.

Estudos recentes sobre nosso desempenho na agricultura apontam que nosso País produz, em média, 1.429 kg/hectares de algodão, ultrapassando a China (1.305 kg/hectares) e os Estados Unidos (918 kg/hectares). A produtividade de soja do Brasil ultrapassa a dos EUA, 2.862 kg/hectares nossos contra 2.856kg/hectares deles.

Sem espaço a dúvida, o sucesso do agronegócio, em brevíssimo tempo, fará a economia brasileira ocupar a quarta posição de maiores e mais influentes no setor agrícola, ultrapassando países como o Japão, a Alemanha e a Rússia, segundo recente previsão da PricewaterhouseCoopers - uma das maiores prestadoras de serviços profissionais do mundo nas áreas de auditoria, consultoria e outros serviços acessórios para todo tipo de empresas.
 No tocante à pecuária, os brasileiros já são os maiores produtores de carne do mundo – possuímos o segundo maior rebanho bovino do planeta, com mais de 211 milhões de cabeças de gado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atrás apenas da Índia, entretanto, ainda temos uma parcela de mais de 7 milhões de pessoas que passam fome, enfrentando diariamente o drama da falta de comida.

Ainda de acordo com dados do IBGE, baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2013, a fome no País atinge 2,1 milhões de domicílios brasileiros, o que equivale a 7,2 milhões de pessoas.

Quanto à relação aluno/escola o drama social não é dos menores. O tempo médio de escolaridade no Brasil do século XXI é semelhante aos dos países mais atrasados dos séculos anteriores – menos de cinco anos. O gasto por estudante brasileiro é de risíveis 3.000 dólares anuais —contra a média mundial de 9.500 dólares, e cinco vezes menor do que a Suíça (US$ 16.000 dólares) e os Estados Unidos (15.000 dólares).

 A dengue – fácil de combater mediante apenas uma boa e intensiva campanha de esclarecimento - ainda continua matando nossa gente: em 2015, atingiu 750 mil pessoas, levando ao óbito 229 brasileiros, apenas em São Paulo, no estado mais rico da nação, foram 169 mortes.

O analfabetismo (formal e digital), outra chaga desse século XXI, é alto demais possuindo um traço de desigualdade parecida com a dos tempos feudais, assim relatam nossos conceituados historiadores da economia.

Em relação à pobreza extrema, mais uma de nossas chagas sociais que persiste à medida que o tempo avança, cabe apontar que pela classificação da ONU estão na "pobreza extrema" aquelas pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia; já a "pobreza" engloba as pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Segundo dados da própria ONU, o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema em 75% entre 2001 e 2012, caindo de 14% para 3,5%. No mesmo período, a pobreza foi reduzida em 65%, caindo de 24,3% para 8,4%. No entanto, a nossa “cifra” em relação a isso ainda é chocante: são 16 milhões de pessoas (dados de 2014) vivendo com menos de dois dólares por dia no Brasil.

Mesmo diante dessa queda dos índices de pobreza extrema e pobreza, especialmente quanto ao universo infantil, os dados consolidados em pesquisas apontam que a cada cem crianças nascidas no Brasil, 22 morrem antes de completarem 1 ano de vida, e, simplesmente, meio milhão de crianças e adolescentes se encontram “trabalhando” na faixa etária de 5 a 13 anos; 61 mil de 5 a 9 anos (faixa etária com maior queda percentual: menos 26,3%) e 446 mil de 10 a 13 anos.

Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), o maior índice de trabalho está na faixa de 14 a 17 anos, sendo 2,6 milhões de adolescentes trabalhando, embora tenha sido nesta faixa etária a ocorrência de maior queda em números absolutos, com 324 mil a menos em situação de trabalho, dados de 2013, corroborados pela PNAD.

No que toca à concentração de renda (salários, juros, lucros) e riqueza (ativos, imóveis), continuamos a ostentar os mais vexatórios índices do planeta — os 0,9% dos mais ricos do País detêm entre 59,90% e 68,49% da riqueza, sendo as principais fontes de acumulação de riqueza os fluxos de renda e herança.

Somos um país desenvolvido ou apenas nos modernizamos? Em plena era dos mais extraordinários avanços na robótica, cibernética, informática e nanotecnologia, ainda morremos ou de problemas típicos de países ricos —doenças circulatórias e respiratórias, câncer, diabetes — ou de países bem miseráveis —cólera, dengue, hanseníase, hepatite, doença de Chagas, sarampo, malária e outros.

A tuberculose, por exemplo, “doença social” por excelência, que atinge particularmente as pessoas mais pobres, registra 70.000 novos casos por ano e 5.000 óbitos.

Diante da indagação acima feita cabe ponderarmos: isso tudo evidencia que apenas nos modernizamos, para os casos citados em que apresentamos “excelente desempenho”, mas, entretanto, continuamos longe, bem longe por sinal, de alcançarmos o “selo” de país desenvolvido, ao menos na acepção que o termo desenvolvimento carrega, como ficam claros os casos em que explicitamente ainda estamos com um pé no século XIX, ou seja, estamos, na soma dos fatos, para sermos modestos, uns 200 anos atrasados em relação a alguns outros países.

REBG
Edição Margarete Fraga
artigo-Prof Marcus Eduardo de Oliveira é economista, especialista em Política Internacional, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP).
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